sábado, 15 de setembro de 2007

Fogo Contra Fogo - O Épico de Micheal Mann


Poucos diretores amam o cinema da forma q
ue Micheal Mann ama. Poucos levam tão a serio a profissão quanto ele. Um homem que virou personagem chave na história do cinema americano com filmes que contavam mais pela forma do que pelo conteúdo, forma essa que por vezes se tornava o próprio conteúdo.

E assim como todos os grandes diretores - hollywodianos ou não - que nunca descansaram sem antes fazer seus respectivos épicos ou obras de orçamentos milionários (Kubrick - Spartacus, Nicholas Ray - O Rei dos Reis, David Lean - Lawrence da Arábia, Spielberg - A Lista de Shindler, Kurosawa - Ran, só para citar alguns dos mais expressivos casos), Michael Mann também pode se aposetar sem dever nada a nenhum de seus colegas de profissão e com duas vantagens: gastando bem menos e sendo o único até agora a ter a honra de dirigir numa mesma cena Robert DeNiro e Al Pacino. Uma cena clássica diga-se de passagem.

Fogo Contra Fogo (HEAT, 1995) tem seu lugar na história do cinema de ação (mesmo sendo ele muito mais do que um punhado de tiroteios) por marcar o começo de uma fase em que Mann se tornava o mentor e gestor de todos os seus projetos. Um favor que hollywood fazia a si próprio.

Daí então se iniciava uma busca interminável por uma linguagem e uma estética fímica baseada no apuro tanto visual quanto sonoro, num experimentalismo abastecido pela vontade de oferecer sempre uma experiência original.

Nas primeiras sequências do filme, logo depois que somos apresentados aos personagens principais, vemos que Mann não estava para brincadeiras: uma cena de assalto a um carro forte quer termina num violento fuzilamento dos seguranças do referido carro, tudo mostrado com crueza e frieza.
Começa então uma contagem regressiva para que heroi e vilão (não se sabe
ao certo para quem torcer no filme) se cruzem.

Nesse meio tempo o filme nos conta em paralelo o cotidiano de duas pessoas que vivem para o que fazem tal como as pessoas que os cercam. De um lado vemos um engenhoso ladrão, Neil McCauley (DeNiro), líder de um bando altamente competente e bem sucedido mas que alimenta uma dor profunda pela escolha de viver sozinho, até que conhece em um bar uma razão para querer se aposentar, a meiga Eady (Amy Brenneman).

No outro lado da rua, mas com grandes similaridades, temos o policial Vincent Hanna, igualmente workaholic, no terceiro casamento já entrando em ruínas e cada vez mais obcecado e admirado pelo estilo de seu novo perseguido. Homens que são o que fazem, esse é o arquétipo típico nos filmes de Mann.

E com um olhar maduro e triste o diretor retalha aos poucos a vida de cada personagem, cada um com uma angústia em particular e com um desejo de ver uma luz no fim do túnel mesmo sem saber ao certo o que fazer ao chegar dessa luz. Afinal, eles só não sabem fazer outra coisa além do que fazem agora, no referido presente. Então vamos chegando aos poucos num clímax que se inicia no encontro entre Neil e Vincent em um bar. Uma encontro que poderia parecer improvável caso perseguido e perseguidor não fossem tão parecidos, embora estejam de lados opostos. Eles não mentem um para o outro, ao contrário, dizem confidências e jogam com franqueza, cada um ao seu modo, mesmo quando se ameaçam. Como disse Sergio Leone a respeito de seus personagens no western Era Uma Vez no Oeste, aqui os personagens sabem que a qualquer momento podem morrer e é ai que uma "dança de morte" se inicia para terminar num apoteótico desfecho mais que anunciado e que no fundo, nenhum de nós queremos que aconteça.

Um tema fúnebre, cortesia do compositor Moby, nos guia entre o último plano e os créditos finais e nós ficamos então, com uma densa sensação de alívio como se os dois homens de mãos dadas que acabamos de ver, finalmente tivessem se acertado, mesmo estando ainda em lados opostos.


Uma obra-prima.


Direção/Roteiro:
Micheal Mann
Dir. Fotografia: Dante Spinotti

Montagem: Pasquale Buba, William Goldenberg, Dov Hoening, Tom Rolf
Música: Elliot Goldenthal

Galeria


Tom azulado (truque simples realizado através de filtros nas janelas) para realçar a tristeza e o uso do espaço para enfatizar a solidão do personagem.


O perseguidor: o homem que é o seu ofício.

sábado, 4 de agosto de 2007

BOFFO! de Bill Couturié - Uma superficial visão da finalidade artística dos filmes em Hollywood.



Afinal, para que servem os filmes?
O que fazem os fazem bons ou ruins? Todos os filmes têm um valor artístico?

Ora, nem todo filme francês ou italiano é provido de um valor artístico relevante. E nem todo filme hollywoodiano pode ser considerado desprovido desse valor.

Mas o que Boffo! Tinseltown´s Bombs and Blockbusters (2006, diridigo pelo documentarista Bill Couturié) nos mostra é que tanto para a imprensa especializada americana quanto para seus para atores, produtores e diretores, o que realmente importa é aquele soldo básico nascido da subtração de custos e faturamento: o lucro.

O engraçado é que na realidade o que se tenta explicar a todo custo é "o que fazem os filmes darem certo".
Mas é óbvio que pelo caminho sugerido pelo filme nunca se chegaria a uma conclusão sensata, talvez nem exista um caminho sensato para seguir.

De todos os entrevistados - e diga-se de passagem pessoas como Robert Evans (o homem por trás do Poderoso Chefão), Morgan Freeman, Danny DeVito, Jodie Foster, Sydney Pollack, Francis Ford Copolla, Brian Grazier, todos figuras chave do cinema americano desde a decada de 70 - o único que toca no assunto "valor artístico" ou "contribuição artística" é George Clooney, não por acaso um grande responsável por alguns dos filmes mais relevantes do mainstream americano (Solaris, Boa Noite, Boa Sorte, Syriana, Confissões de Uma Mente Criminosa).

O que parece importar para todos se resume em entretenimento puro e simples. Não que seja um fim injusto para o cinema até porque a sétima arte nasceu para oferecer diversão pura e simples, mas condensar ou negligenciar as outras dimensões da película é subestimar demais a sua força e importância social, cultural e até econômica.

Filmes como Tubarão, O Poderoso Chefão, A Fogueira das Vaidades, Dança Com Lobos ou Conduzindo Miss Daisy não podem ser simplesmente analisados de um ponto de vista de "sucesso de público" até por que alguns desses filmes (como A Fogueira das Vaidadaes) e outros citados durante o documentário (Um Sonho de Liberdade) foram fiascos nas bilheterias (são os tinseltown´s bombs do título) e nunca deixaram de ter seu valor: o tempo tratou de coloca-los em seu devido lugar na historia de cinema.

Obras como Titanic são comentadas como acima do bem e do mal. Não que seja de todo ruim pois ele tem muitas qualidades, mas muitos defeitos também e visivelmente aparentes: roteiro nada criativo permeado de clichês e personagens caricatos o que piora sem uma direção de atores que os dê mais expressividade e nos ajude a engolir mais facilmente o conto de novela mexicana a qual o filme se resume. James Cameron foi essencialmente técnico neste trabalho e nunca mereceu o oscar de melhor diretor (o prêmio de produtor já foi mais que merecido). Mas como Titanic arrecadou a fortuna de mais de U$ 1bilhão, ele é tratado como o sonho de qualquer realizador hollywoodiano.

Quem viveu ou até teve a oportunidade de ver os grandes filmes dos anos 70, "a época em que os internos dirigiam o hospício" como disse George Clooney, não entende como Titanic pode se igualar a filmes como os já citados Tubarão e O Poderoso Chefão ou Um Dia De Cão, Chinatown, Dr. Fantástico, Trama Macabra, Taxi Driver dentre tantos outros sucessos de bilheteria mas que, mais do que arrecadar milhões, conseguiram oferecer uma experiência única em termos de cinema.

Não acredito que as três perguntas lançadas no início do texto tenham uma resposta única mas uma coisa é certa: o que Boffo! tenta explicar e não consegue é que Hollywood deveria tratar o cinema de uma forma mais educada.

Título: Boffo! Tinseltown´s Bombs and Blocbusters
Diretor: Bill Couturié
Ano: 2006

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Seven, de David Fincher - Clássico moderno


Falar de Seven – Os Sete Pecados Capitais pode nos dar certa sensação de nostalgia, sensação por vezes nada agradável.

Já revê-lo é um exercício que gratifica e inspira, pois ao passar desses 12 anos, a força da película de David Fincher ainda permanece a mesma, seja pelo bem ou pelo mal.

Pessimista e até apocalíptico, o mundo impiedoso e cruel criado por Fincher faz o personagem vivido por Morgan Freeman sustentar que nem pôr um filho nesse mundo seria uma decisão sensata. E até concordamos com ele.

Todas as pretensões da obra podem ser mais bem observadas agora. Passados os anos e ocupando uma posição de clássico moderno o filme ainda continua chocante, tanto pelo o que é visto quanto ao que está oculto, que é onde reside o seu grande e poderoso trunfo, pois ele, o oculto, apenas é medido por nós ou por nossa imaginação: durante todo o filme tentamos, com repulsa, visualizar o momento exato dos assassinatos, o que nunca é mostrado.

Os personagens centrais são aparentemente caricatos, mas da mesma forma que agem como arquétipos típicos do gênero, se distanciam desse mesmo com diálogos e situações que definem a força de suas personalidades, paradoxais entre si, criando um duelo paralelo à trama principal sem, contudo, tira-lo de foco.

Seu clímax acabou por se tornar conhecida por seu final tão imprevisível quanto maquiavélico, mas isso nunca tirou a sua virtude de possibilitar revisões e de se tornar uma referência talvez para toda a história do cinema. Mesmo que a ela falte (e só com o passar dos anos podemos, então, perceber) a contribuição plena da ousadia estética do diretor que só viríamos em total ação em trabalhos posteriores. Sua câmera ainda é tímida, correta na composição dos planos e reforçada com todo vigor pela assustadora fotografia de Darius Khondji (ganhador do importante prêmio do CFCA Award, da associação de críticos de Chicago) e pela magnífica montagem de Richard Francis-Bruce (a primeira montagem 100% digital a ser indicada ao Oscar).

Fincher se tornou um estilista da imagem em movimento. Vindo do universo dos videoclips (Madonna, Aerosmith, Paula Abdul) ele sabe como compor um plano sedutor, mesmo que tenebroso também se encaixe como adjetivo. Suas habilidades na construção de cenas de impacto e nada convencionais foram logo percebidas em Alien³, de 1992, seu primeiro longa. Com Seven, Vidas Em Jogo (The Game, 1997) e o polêmico Clube da Luta (Fightclub, 1999) ele se afirmou como diretor no mainstream juntamente com os colegas Steven Soderbergh (Irresistível Paixão, Traffic) e Brian Singer (Os Suspeitos, O Aprendiz), este último acabando por se tornar bem desinteressante. Trabalhou como produtor em diversos projetos, se destacando pela serie de curtas The Hire (2001), uma coleção de 8 filmes com finalidade publicitária para a BMW. Realizou ainda como diretor o mediano, porém, interessante Quarto do Pânico (Panic Room, 2001) e o recente Zodíaco (Zodiac, 2007).

Seven – Os Sete Pecados Capitais foi bem recebido e premiado em vários festivais e ainda indicado ao Oscar de melhor edição em 1996. Ainda foi vencedor do Golden Trailer Awards de melhor trailer da década.

É referência do cinema americano dos anos 90 e um marco no cinema de horror, talvez um exemplo ímpar e singular demais para compará-lo ou imitá-lo.

Título: Seven – Os Sete Pecados Capitais Diretor: David Fincher Roteiro: Andrew Kevin Walker
Elenco principal: Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow, R. Lee Ermey e Kevin Spacey.
Montagem: Richard Francis-Bruce Dir. Fotografia: Darius Khondji Música Original: Howard Shore

Galeria


Brad Pitt e Morgan Freeman em frente a camera.


Gwytneth lindamente iluminada.


Fotografia do set: cena pertubadora.


Peça criada para o Design de Produção.


Peça do storyboard.


O clímax
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