Poucos diretores amam o cinema da forma que Micheal Mann ama. Poucos levam tão a serio a profissão quanto ele. Um homem que virou personagem chave na história do cinema americano com filmes que contavam mais pela forma do que pelo conteúdo, forma essa que por vezes se tornava o próprio conteúdo.
E assim como todos os grandes diretores - hollywodianos ou não - que nunca descansaram sem antes fazer seus respectivos épicos ou obras de orçamentos milionários (Kubrick - Spartacus, Nicholas Ray - O Rei dos Reis, David Lean - Lawrence da Arábia, Spielberg - A Lista de Shindler, Kurosawa - Ran, só para citar alguns dos mais expressivos casos), Michael Mann também pode se aposetar sem dever nada a nenhum de seus colegas de profissão e com duas vantagens: gastando bem menos e sendo o único até agora a ter a honra de dirigir numa mesma cena Robert DeNiro e Al Pacino. Uma cena clássica diga-se de passagem.
Fogo Contra Fogo (HEAT, 1995) tem seu lugar na história do cinema de ação (mesmo sendo ele muito mais do que um punhado de tiroteios) por marcar o começo de uma fase em que Mann se tornava o mentor e gestor de todos os seus projetos. Um favor que hollywood fazia a si próprio.
Daí então se iniciava uma busca interminável por uma linguagem e uma estética fímica baseada no apuro tanto visual quanto sonoro, num experimentalismo abastecido pela vontade de oferecer sempre uma experiência original.
Nas primeiras sequências do filme, logo depois que somos apresentados aos personagens principais, vemos que Mann não estava para brincadeiras: uma cena de assalto a um carro forte quer termina num violento fuzilamento dos seguranças do referido carro, tudo mostrado com crueza e frieza. Começa então uma contagem regressiva para que heroi e vilão (não se sabe ao certo para quem torcer no filme) se cruzem.
Nesse meio tempo o filme nos conta em paralelo o cotidiano de duas pessoas que vivem para o que fazem tal como as pessoas que os cercam. De um lado vemos um engenhoso ladrão, Neil McCauley (DeNiro), líder de um bando altamente competente e bem sucedido mas que alimenta uma dor profunda pela escolha de viver sozinho, até que conhece em um bar uma razão para querer se aposentar, a meiga Eady (Amy Brenneman).
No outro lado da rua, mas com grandes similaridades, temos o policial Vincent Hanna, igualmente workaholic, no terceiro casamento já entrando em ruínas e cada vez mais obcecado e admirado pelo estilo de seu novo perseguido. Homens que são o que fazem, esse é o arquétipo típico nos filmes de Mann.
E com um olhar maduro e triste o diretor retalha aos poucos a vida de cada personagem, cada um com uma angústia em particular e com um desejo de ver uma luz no fim do túnel mesmo sem saber ao certo o que fazer ao chegar dessa luz. Afinal, eles só não sabem fazer outra coisa além do que fazem agora, no referido presente. Então vamos chegando aos poucos num clímax que se inicia no encontro entre Neil e Vincent em um bar. Uma encontro que poderia parecer improvável caso perseguido e perseguidor não fossem tão parecidos, embora estejam de lados opostos. Eles não mentem um para o outro, ao contrário, dizem confidências e jogam com franqueza, cada um ao seu modo, mesmo quando se ameaçam. Como disse Sergio Leone a respeito de seus personagens no western Era Uma Vez no Oeste, aqui os personagens sabem que a qualquer momento podem morrer e é ai que uma "dança de morte" se inicia para terminar num apoteótico desfecho mais que anunciado e que no fundo, nenhum de nós queremos que aconteça.
Um tema fúnebre, cortesia do compositor Moby, nos guia entre o último plano e os créditos finais e nós ficamos então, com uma densa sensação de alívio como se os dois homens de mãos dadas que acabamos de ver, finalmente tivessem se acertado, mesmo estando ainda em lados opostos.
Uma obra-prima.
Direção/Roteiro: Micheal Mann
Dir. Fotografia: Dante Spinotti
Montagem: Pasquale Buba, William Goldenberg, Dov Hoening, Tom Rolf
Música: Elliot Goldenthal

Tom azulado (truque simples realizado através de filtros nas janelas) para realçar a tristeza e o uso do espaço para enfatizar a solidão do personagem.

O perseguidor: o homem que é o seu ofício.








